Terapia

"Será que o meu caso é sério o suficiente?"

19 de outubro de 2026 · 4 min de leitura

"Será que o meu caso é sério o suficiente?"

Uma pergunta que adia muitos começos.

“Será que o meu caso é sério o suficiente?” Essa é uma pergunta que escuto com frequência nos primeiros contatos de pessoas que pensam em começar uma psicoterapia. Geralmente vem acompanhada de uma comparação: há quem esteja pior, quem tenha problemas mais graves, e aquilo que a pessoa sente talvez não seja tão importante assim.

Por trás dessa dúvida existe uma ideia bastante difundida de que a terapia é um recurso para quando já não conseguimos dar conta da vida. Quando o sofrimento compromete o trabalho, as relações, o sono, ou quando alguém próximo percebe que não estamos bem. Até lá, parece que ainda é possível aguentar.

Essa maneira de pensar tem uma história. Durante muito tempo, procurar um psicólogo esteve associado à fraqueza, à incapacidade de resolver os próprios problemas ou à ideia de que somente pessoas com transtornos mentais graves precisariam de atendimento. Embora muita coisa tenha mudado, essas concepções ainda estão presentes na maneira como algumas pessoas compreendem suas dificuldades.

Há também histórias pessoais que ajudam a entender essa resistência. São pessoas que aprenderam desde cedo que não deveriam demonstrar fragilidade, que precisavam resolver seus problemas sozinhas ou que encontraram reconhecimento justamente na capacidade de suportar situações difíceis sem reclamar.

Com o tempo, essa maneira de lidar com a vida pode se tornar tão familiar que a pessoa já não percebe o quanto está sofrendo. Ela continua trabalhando, cuidando da família, cumprindo suas responsabilidades. E, porque consegue manter tudo funcionando, entende que ainda não há motivo para procurar ajuda.

Mas conseguir suportar uma situação não significa necessariamente estar bem com ela.

A comparação com o sofrimento dos outros também merece atenção. “Tem gente passando por coisa muito pior.” Essa frase pode parecer uma maneira de colocar os próprios problemas em perspectiva, mas também pode funcionar como uma razão para desconsiderar aquilo que se sente.

Sempre haverá alguém enfrentando uma situação mais difícil. Isso não torna a nossa dor menor nem menos real. Cada pessoa vive suas experiências a partir de uma história particular, das relações que construiu e dos recursos de que dispõe. O sofrimento não pode ser medido apenas pela gravidade aparente daquilo que aconteceu.

A psicoterapia também pode ser um espaço para questões que ainda não sabemos explicar.

Tem gente que procura atendimento porque percebe que repete o mesmo tipo de relação e quer compreender por quê. Outras pessoas chegam depois de uma mudança que, vista de fora, parecia boa — uma promoção, um casamento, a saída dos filhos de casa —, mas que trouxe sentimentos inesperados. Há quem esteja irritado com tudo, insatisfeito com a própria vida ou simplesmente com a sensação de que alguma coisa não vai bem. 

Nenhuma dessas situações precisa representar uma emergência para que possa ser pensada.

Isso não significa que toda tristeza, dúvida ou dificuldade precise de tratamento psicológico. Muitas experiências encontram acolhimento e elaboração nas relações familiares, nas amizades e em outros espaços da vida. A questão é reconhecer que não precisamos esperar que o sofrimento se torne insuportável para olhar com mais atenção para aquilo que estamos vivendo.

Uma parte importante do trabalho do terapeuta é compreender como cada pessoa aprendeu a reconhecer e lidar com o próprio sofrimento. O que significava pedir ajuda na família em que cresceu? Como eram recebidas suas dificuldades? Em que momentos aprendeu que precisava aguentar?

Essas perguntas podem revelar muito sobre a maneira como alguém se relaciona consigo mesmo.

Outra expectativa que costuma dificultar o início da psicoterapia é imaginar que precisamos saber exatamente o que dizer. Como se fosse necessário chegar com o problema identificado e a história organizada. Mas nem sempre sabemos por onde começar. Encontrar palavras para aquilo que sentimos também pode fazer parte do processo.

E compreender a própria história não significa conseguir mudar imediatamente. Reconhecer determinadas repetições, perceber como aprendemos a reagir ou identificar conflitos que nos acompanham há muito tempo são movimentos importantes, mas a elaboração dessas experiências exige tempo.

A psicoterapia não oferece respostas prontas para as dificuldades da vida. É um trabalho de escuta, compreensão e elaboração, no qual a pessoa pode construir outras maneiras de se relacionar com sua história, seus sentimentos e suas escolhas.

Por isso, quando alguém pergunta se seu caso é suficientemente sério para procurar terapia, penso que existe outra pergunta que merece ser feita.

Em vez de tentar descobrir se está mal o suficiente, talvez seja possível começar a perguntar: “O que está acontecendo comigo?”

Essa mudança permite olhar para a própria experiência com menos julgamento e mais interesse em compreendê-la.

O sofrimento não precisa chegar ao limite para merecer atenção.


[INFORMAÇÕES SOBRE A CONSULTA]

Sobre a autora: Fernanda Souza é psicóloga há mais de 25 anos, com mestrado em Saúde Coletiva. Sua prática é sustentada por análise pessoal, estudo contínuo e compromisso ético com o cuidado em saúde mental.