Saúde Mental

Quando a política entra em casa: o que o clima eleitoral faz com a nossa saúde mental

22 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

Quando a política entra em casa: o que o clima eleitoral faz com a nossa saúde mental

“Saí do grupo da família. Não dava mais.”

Depois de tantas discussões, sair pareceu a melhor decisão. Chega de abrir o celular e encontrar provocações, mensagens ofensivas ou mais uma discussão que não leva a lugar nenhum.

O problema é que sair do grupo não resolve necessariamente o desconforto com as pessoas que continuam ali. São irmãos, primos, tios, gente com quem se compartilham histórias, aniversários e almoços de domingo.

A decisão de se afastar pode trazer alívio, mas também deixa perguntas. Como será o próximo encontro? O assunto vai voltar à mesa? Será possível conversar como antes?

Em períodos eleitorais, essas situações ganham espaço nas conversas e nas relações familiares. As diferenças políticas, que em outros momentos pareciam administráveis, tornam-se motivo de discussões frequentes. E aquilo que começou como uma discordância sobre candidatos ou propostas acaba atingindo a maneira como as pessoas se relacionam.

Há algo especialmente difícil em ouvir determinadas opiniões de alguém que conhecemos há muitos anos. A surpresa pode ser grande. Aquela pessoa que sempre esteve presente, que participou de momentos importantes da nossa vida, agora defende posições que nos causam indignação ou que entram em conflito com valores que consideramos fundamentais.

O que fazer com essa descoberta?

A convivência familiar é construída ao longo de muitos anos. Guardamos lembranças, experiências compartilhadas, gestos de cuidado e também conflitos que ficaram pelo caminho. Tudo isso participa da imagem que construímos das pessoas próximas.

Quando uma divergência política atinge questões importantes para nós, essa imagem pode mudar. Passamos a olhar de outra maneira para alguém que acreditávamos conhecer tão bem. O afeto continua existindo, mas a relação já não parece exatamente a mesma.

É difícil lidar com a decepção quando ela envolve pessoas de quem gostamos. Podemos reconhecer tudo o que houve de bom naquela convivência e, ainda assim, sentir desconforto diante de determinadas falas. A história compartilhada não desaparece, assim como aquilo que foi dito também não deixa de ter importância.

Em algumas famílias, as discussões se repetem até que alguém decide interromper a conversa ou se afastar.

Em outras, estabelece-se um acordo silencioso: certos assuntos deixam de ser mencionados. Os encontros continuam, mas as pessoas passam a medir as palavras, evitar determinados temas e prestar atenção ao momento em que uma conversa ameaça se transformar em conflito.

Essa mudança na convivência também pode produzir sofrimento. Há quem sinta falta da espontaneidade que existia antes. Há quem se pergunte se o vínculo ainda comporta determinadas diferenças. E há quem descubra que já vinha se sentindo desrespeitado naquela relação muito antes das discussões eleitorais.

A ideia de que precisamos respeitar opiniões diferentes costuma aparecer nessas situações. Mas é importante reconhecer que as divergências não têm todas o mesmo significado.

Discordar sobre uma proposta econômica, por exemplo, não produz necessariamente a mesma experiência que ouvir alguém próximo desconsiderar uma situação de violência ou discriminação que faz parte da nossa história. Para quem vive determinadas experiências, algumas discussões envolvem questões muito pessoais, relacionadas à própria dignidade e à maneira como deseja ser tratado.

Por outro lado, existem relações em que as pessoas conseguem reconhecer diferenças importantes sem transformar cada encontro em uma disputa. Isso depende da história daquele vínculo, da disposição para escutar e, principalmente, da possibilidade de conversar sem agressões ou desqualificações.

Não há uma única maneira de lidar com essas situações. Algumas pessoas encontram formas de preservar a convivência. Outras precisam estabelecer limites mais claros. Em determinados casos, o afastamento se torna necessário.

O que merece atenção é o significado dessas escolhas para cada pessoa.

Sair de um grupo de mensagens pode ser uma decisão pontual, tomada para interromper discussões desgastantes. Também pode representar algo maior: o reconhecimento de que uma relação mudou e de que continuar participando daquela dinâmica já não faz sentido.

Na clínica, compreender essas experiências envolve olhar para a história dos vínculos. Por que determinada fala provocou tanto sofrimento? O que aquela pessoa representa? O que torna tão difícil estabelecer um limite? O que se teme perder ao se afastar?

Essas perguntas ajudam a compreender conflitos que dificilmente se resolvem apenas com recomendações para ter paciência ou evitar discussões.

Há uma expectativa frequente de que os vínculos familiares devam permanecer intactos, independentemente do que aconteça. Mas as relações também se transformam. As pessoas mudam, revelam aspectos que desconhecíamos, fazem escolhas com as quais não concordamos. E nós precisamos encontrar maneiras de lidar com essas mudanças.

As eleições têm uma data para terminar. As relações que foram afetadas durante esse período continuam fazendo parte da vida, mesmo quando a convivência já não acontece da mesma maneira.

Depois de uma discussão, podemos voltar a conversar, estabelecer novos limites ou reconhecer que precisamos de distância. Essas decisões envolvem sentimentos, histórias e circunstâncias que não cabem em uma regra sobre como as famílias deveriam se comportar.

Talvez uma das questões mais difíceis da vida adulta seja justamente reconhecer que o afeto não resolve todas as diferenças. Podemos gostar de alguém, valorizar a história que construímos juntos e, ainda assim, precisar rever a maneira como nos relacionamos.

Porque reconhecer a importância de um vínculo também envolve compreender o que é possível viver dentro dele.

[INFORMAÇÕES SOBRE A CONSULTA]

Sobre a autora: Fernanda Souza é psicóloga há mais de 25 anos, com mestrado em Saúde Coletiva. Sua prática é sustentada por análise pessoal, estudo contínuo e compromisso ético com o cuidado em saúde mental.