“Não é nada, eu resolvo.”
Ao longo dos anos de consultório, escutei diferentes versões dessa frase de homens que demoraram muito tempo para procurar ajuda.
Há um dado que ajuda a entender melhor essa questão. Segundo o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde publicado em 2024, o Brasil registrou 15.507 mortes por suicídio em 2021. 77,8% delas foram de homens.
O dado não significa simplesmente que homens sofram mais ou menos. Mas nos obriga a olhar também para a maneira como muitos homens aprenderam a reconhecer, expressar e pedir ajuda diante do sofrimento.
E isso tem uma história. Muitos meninos crescem aprendendo que algumas emoções são mais aceitáveis do que outras. A raiva é mais aceitável. Já o medo, a tristeza e a vulnerabilidade, muitas vezes, menos. Chorar pode ser recebido como algo que deve ser controlado. Diante de uma dificuldade, aprende-se cedo: levanta, aguenta, resolve.
Anos depois, colocar em palavras o que se sente pode não ser tão simples. Não necessariamente porque não se queira falar, mas porque reconhecer e nomear certas experiências também é algo que se aprende.
Então o sofrimento pode aparecer de outras maneiras. Irritação, afastamento, excesso de trabalho, aumento do consumo de álcool, horas diante de uma tela. E nem sempre esses comportamentos são reconhecidos como sinais de que alguma coisa não vai bem, seja por quem está em volta ou pelo próprio homem.
Existe ainda outro aspecto da questão. Para muitos homens, sustentar, resolver e não dar trabalho se tornam partes importantes da própria identidade. Pedir ajuda pode ser vivido não apenas como desconforto, mas como ameaça à imagem de alguém que deveria conseguir resolver sozinho.
Talvez por isso alguns homens cheguem ao consultório somente quando alguma parte da vida já se tornou difícil demais de sustentar.
Procurar ajuda não significa abrir mão da autonomia. Às vezes, pode significar justamente reconhecer que autonomia não é a mesma coisa que ter de resolver tudo sozinho.
Se você estiver atravessando um sofrimento difícil de sustentar, o CVV oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo 188, 24 horas por dia. O atendimento por chat funciona em horários específicos. Em situações de risco imediato, SAMU 192.
O que você aprendeu, ainda menino, sobre aquilo que podia ou não podia sentir?
[INFORMAÇÕES SOBRE A CONSULTA]
Sobre a autora: Fernanda Souza é psicóloga há mais de 25 anos, com mestrado em Saúde Coletiva. Sua prática é sustentada por análise pessoal, estudo contínuo e compromisso ético com o cuidado em saúde mental.