“E se eu perguntar e piorar?”
Essa é uma dúvida que pode aparecer antes de uma conversa difícil.
Quando alguém percebe que uma pessoa próxima não está bem e cogita tocar diretamente no assunto, surge um medo compreensível: e se perguntar sobre suicídio colocar na cabeça do outro uma ideia que ainda não estava ali?
Não é assim que funciona.
Perguntar diretamente a alguém que tem pensado em morrer não provoca pensamentos suicidas em quem não os tinha. Para quem já convive com esses pensamentos, encontrar alguém disposto a perguntar e escutar pode diminuir a ansiedade e abrir espaço para falar sobre algo que vinha sendo mantido em silêncio.
Existe, porém, uma distinção importante: falar sobre suicídio pode proteger, mas a maneira como falamos sobre faz a diferença.
Essa diferença vem sendo estudada há décadas. Em 1974, o sociólogo americano David Phillips utilizou a expressão “efeito Werther”, em referência ao romance de Goethe, para descrever o aumento de suicídios observado após determinadas formas de divulgação. Anos depois, pesquisadores passaram a estudar também o movimento oposto. Em 2010, Thomas Niederkrotenthaler e seus colaboradores propuseram a expressão “efeito Papageno”, inspirada no personagem da ópera A Flauta Mágica, de Mozart, para descrever o possível efeito protetivo de narrativas que apresentam pessoas enfrentando crises suicidas e encontrando outras maneiras de atravessá-las.
A questão, portanto, não é simplesmente falar ou não falar. É como falar.
O silêncio também tem consequências. Quando evitamos qualquer conversa sobre suicídio por medo de piorar a situação, podemos deixar alguém sozinho com algo que já estava difícil de sustentar.
E na prática, como se pergunta?
Não é necessário rodear o assunto nem dramatizar. Fazer muitos rodeios pode comunicar que o assunto é difícil demais para ser dito, e isso pode fazer a pessoa recuar. Perguntas do tipo “você não está pensando besteira, está?” já vêm com a resposta embutida e pode dificultar uma resposta sincera.
Funciona melhor perguntar mais diretamente: “você tem pensado em morrer?” ou “as coisas chegaram a um ponto em que você pensou em tirar a própria vida?”. Antes disso, ajuda dizer o que você observou, sem interpretar: “Você tem parecido diferente nas últimas semanas, mais quieto, e eu fiquei pensando em você.” Uma observação concreta costuma abrir mais espaço para a conversa do que um diagnóstico improvisado.
E depois vem a parte para a qual raramente estamos preparados: o que fazer com a resposta.
Se for sim, evite transformar a conversa em argumento, ou tentar convencê-la de que não deveria se sentir assim. Lembrar de quem depende dela, sobre tudo o que ela tem de bom pode, justamente, interromper a conversa quando o mais importante é manter aberto o espaço para que ela fale.
O que ajuda é continuar perguntando e continuar escutando. Há quanto tempo isso está assim? Esses pensamentos estão acontecendo agora? Ela já pensou em como faria isso? Existe um plano? Já falou com alguém? Está recebendo algum cuidado? O que costuma piorar e o que alivia um pouco?
As respostas ajudam a compreender melhor a urgência da situação. Se houver intenção de morrer, um plano concreto ou risco imediato, a pessoa não deve ficar sozinha. É hora de acionar ajuda profissional e, sempre que possível, fazer isso junto: ligar junto, procurar atendimento junto, permanecer próximo enquanto o cuidado é organizado.
Também não prometa segredo absoluto. Há situações em que cuidar significa envolver outras pessoas e profissionais, mesmo que essa seja uma conversa difícil.
Você não é responsável por salvar ninguém. Seu papel pode ser fazer a ponte entre a pessoa e quem tem preparo para cuidar.
O CVV oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo 188, 24 horas por dia. O atendimento por chat funciona em horários específicos informados no site do CVV. Em situações de urgência ou risco imediato, o SAMU pode ser acionado pelo 192, e UPAs e serviços hospitalares de urgência também podem ser procurados. Os CAPS e demais serviços da Rede de Atenção Psicossocial fazem parte da rede de cuidado em saúde mental.
[INFORMAÇÕES SOBRE A CONSULTA]
Sobre a autora: Fernanda Souza é psicóloga há mais de 25 anos, com mestrado em Saúde Coletiva. Sua prática é sustentada por análise pessoal, estudo contínuo e compromisso ético com o cuidado em saúde mental.