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Escutar sem consertar

04 de setembro de 2026 · 4 min de leitura

Escutar sem consertar

"Eu só queria falar, não queria que resolvessem." Essa é uma das observações que mais se repetem quando o assunto é o que dá errado entre pessoas que se gostam. Quem fala não se sente ouvido. Quem ouve não entende a queixa, porque estava tentando ajudar. Os dois têm razão sobre a própria intenção. O tema do Setembro Amarelo deste ano, definido pelo CVV, é "Escutar é estar presente". É bem verdadeiro, mas não é tão fácil como imaginamos. Escutar não depende apenas de boa vontade. É também uma habilidade, e pouco aprendemos sobre ela. 

Repare no que acontece quando alguém começa a contar algo difícil.

Nos primeiros momentos a atenção está inteira ali. Depois vai mudando. Quem ouve começa a organizar uma resposta, procura uma solução, tenta lembrar de algo parecido que viveu, ou formula uma sugestão. O corpo continue voltado para a pessoa e a cabeça continue balançando, mas parte da atenção já ficou voltada para o que poderá ser dito em seguida.


Isso não acontece necessariamente por falta de interesse. Muitas vezes acontece justamente pelo excesso de preocupação e pela vontade de ajudar. Ouvir a dor de alguém de quem gostamos produz uma sensação de impotência que não é fácil sustentar. O conselho aparece como uma saída para esse desconforto: devolve a sensação de que estamos fazendo alguma coisa. O problema é que aquilo que alivia quem ouve nem sempre é aquilo de que quem fala está precisando. 

E ainda tem outra dificuldade, mais silenciosa: suportar o silêncio.


Quando alguém termina uma frase difícil, costuma haver uma pausa. E essa pausa pode ser desconfortável a ponto de sentirmos que precisamos preenchê-la. Fazemos uma pergunta, contamos uma experiência nossa. Só que, muitas vezes, era justamente depois daquele silêncio que viria alguma coisa que a pessoa ainda estava tentando encontrar uma maneira de dizer.

Muito do que importa numa conversa vem depois da pausa que ninguém aguentou esperar.

Vale também prestar atenção para o que dizemos com boa intenção e que pode acabar encerrando a conversa. "Pensa em quem te ama." "Tem gente em situação pior." "Isso vai passar." "Você é forte." Essas frases comunicam, sem querer, que aquele sofrimento precisa ser rapidamente afastado, superado. Quem estava falando entende que é melhor parar.

Escutar exige algo diferente. Perguntar em vez de afirmar. Em lugar de “você precisa descansar”, perguntar “como isso tem sido para você?”. Devolver aquilo que entendemos para que a pessoa possa confirmar, corrigir ou continuar. Permitir que exista uma pausa. E admitir quando não sabemos o que dizer, porque reconhecer “eu não sei o que dizer, mas posso ficar aqui com você” pode sustentar uma conversa melhor do que oferecer um conselho.


Existe um limite que precisa ficar claro. Escutar alguém não nos transforma em terapeuta de quem a gente ama, nem nos torna responsáveis por resolver o que a pessoa está vivendo. Escuta não substitui o cuidado profissional. Há situações em que só manter uma conversa não é suficiente. 

Quando alguém demonstra sofrimento intenso, desesperança ou fala em morrer ou se machucar, isso precisa ser levado a sério. Procurar ajuda não significa abandonar a escuta; pode ser justamente uma maneira de continuar cuidando. O CVV oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia; o atendimento por chat está disponível em horários informados no site do CVV. Em situações de urgência ou risco imediato, o SAMU pode ser acionado pelo 192.

Escutar não resolve a vida de quem sofre.

Mas pode fazer algo que não é pequeno: permitir que, por algum tempo, aquela pessoa não precise sustentar sozinha aquilo que está vivendo.

Quando foi a última vez que você escutou alguém sem já estar pensando na resposta?

[INFORMAÇÕES SOBRE A CONSULTA]

Sobre a autora: Fernanda Souza é psicóloga há mais de 25 anos, com mestrado em Saúde Coletiva. Sua prática é sustentada por análise pessoal, estudo contínuo e compromisso ético com o cuidado em saúde mental.