Há perguntas que não aparecem no início da vida. Elas esperam até que exista espaço para serem escutadas.
"Não sei mais o que eu quero."
Essa costuma ser uma frase dita quase em voz baixa. Diferentemente de outras que chegam ao consultório carregadas de urgência, ela aparece envolta em certo constrangimento, como se houvesse algo de inadequado em não conseguir responder a uma pergunta aparentemente tão simples. O curioso é que ela raramente surge no começo da vida adulta. Na maior parte das vezes, aparece depois de muitos anos. Quando os filhos já cresceram, a carreira se estabilizou, um casamento terminou ou, simplesmente, quando a rotina deixou de exigir tanto. É como se a vida, ao desacelerar por um instante, abrisse espaço para uma pergunta que permaneceu adiada durante muito tempo.
Até então, havia sempre algo mais urgente. Era preciso trabalhar, cuidar da família, pagar as contas, construir uma profissão, enfrentar perdas, reorganizar caminhos. A vida seguia pedindo respostas rápidas, e respondê-las era necessário. Não havia muito tempo para perguntar a si mesmo o que ainda fazia sentido. Havia, antes, o compromisso de fazer a vida acontecer.
Não vejo isso como um erro. A vida adulta exige responsabilidade e, em muitos momentos, ela realmente nos convoca a colocar nossos desejos em segundo plano. O problema não está em fazer isso por algum tempo. O problema começa quando essa forma de viver se prolonga tanto que já não conseguimos distinguir aquilo que escolhemos daquilo que apenas fomos aprendendo a cumprir.
É nesse momento que a pergunta aparece.
Não como um capricho.
Mas como uma necessidade.
Donald Winnicott escreveu que uma das tarefas mais importantes do amadurecimento é preservar um núcleo espontâneo do self, uma experiência de existir que não seja construída apenas em resposta às expectativas do ambiente. Gosto dessa ideia porque ela desloca o olhar. Em vez de perguntar por que alguém perdeu o próprio desejo, ela nos convida a pensar quanto dessa vida foi organizada para responder ao que era esperado.
É por isso que tantas pessoas se surpreendem quando, depois de anos funcionando tão bem, descobrem que já não sabem responder ao que desejam. Não porque tenham deixado de desejar, mas porque passaram tempo suficiente respondendo às necessidades da vida para que a própria voz se tornasse quase imperceptível.
Na clínica, essa experiência costuma ser confundida com indecisão. Mas nem toda dúvida nasce da dificuldade de escolher. Há dúvidas que surgem justamente porque uma forma de viver deixou de fazer sentido, enquanto outra ainda não encontrou palavras. É um tempo delicado. Quem o atravessa costuma sentir ansiedade, impaciência e, muitas vezes, culpa por não conseguir definir rapidamente o próximo passo.
Vivemos em uma cultura que valoriza pessoas decididas. Espera-se que saibamos onde queremos chegar, que tenhamos metas claras, respostas prontas e projetos bem definidos. Talvez por isso seja tão difícil reconhecer que algumas perguntas importantes precisam de tempo. Não porque sejamos lentos, mas porque certas respostas não podem ser produzidas antes que uma parte da nossa história também seja revista.
A psicoterapia não oferece uma resposta para a pergunta "o que eu quero?". Se oferecesse, seria apenas mais uma resposta emprestada. O que ela pode oferecer é um espaço onde essa pergunta deixe de ser vivida como uma falha e passe a ser compreendida como parte de um processo. Um espaço onde seja possível escutar, sem tanta pressa, aquilo que permaneceu em silêncio durante muitos anos.
Amadurecer também tem a ver com isso. Não com chegar a uma versão definitiva de si mesmo, mas com recuperar, pouco a pouco, a capacidade de reconhecer a própria experiência antes de responder automaticamente ao que a vida continua pedindo.
Há perguntas que aparecem cedo. Outras esperam décadas. E talvez uma das mais importantes seja justamente aquela que só conseguimos fazer quando deixamos de viver apenas para corresponder ao mundo e encontramos, enfim, algum espaço para voltar a conversar conosco.
Se essa pergunta tem ficado mais presente para você ultimamente, pode ser um bom momento para conversar sobre isso.
[INFORMAÇÕES SOBRE A CONSULTA]
Sobre a autora: Fernanda Souza é psicóloga há mais de 25 anos, com mestrado em Saúde Coletiva. Sua prática é sustentada por análise pessoal, estudo contínuo e compromisso ético com o cuidado em saúde mental.