"Achei que, nessa idade, eu já estaria diferente."
Crescer não significa chegar a uma versão definitiva de si mesmo. Significa continuar sendo transformado pela vida.
"Eu achei que, nessa idade, isso já não faria mais parte da minha vida."
Essa frase aparece no consultório de formas muito diferentes. Às vezes, ela fala de um medo que insiste em voltar. Outras vezes, de uma dificuldade em colocar limites, da culpa que ainda acompanha determinadas escolhas ou da sensação de continuar preso a conflitos que pareciam ter ficado para trás. O tempo passou. A vida mudou. Vieram o trabalho, os filhos, as perdas, os recomeços. Ainda assim, alguma coisa permanece.
Não é raro que essa constatação venha acompanhada de frustração. Como se a passagem dos anos trouxesse consigo a promessa silenciosa de que, em algum momento, nos tornaríamos pessoas emocionalmente resolvidas. Como se existisse uma idade em que finalmente deixaríamos de sentir medo, insegurança, ciúme, culpa ou necessidade de reconhecimento.
Essa promessa nunca foi feita de forma explícita. Ainda assim, muitos de nós crescemos acreditando nela. Talvez porque a própria ideia de amadurecimento tenha sido confundida com a de superação definitiva. Crescer passou a significar deixar certas questões para trás, tornar-se alguém mais seguro, mais estável, menos vulnerável.
A experiência clínica, no entanto, costuma contar outra história. Depois de muitos anos escutando adultos, uma impressão permanece: os conflitos não desaparecem porque envelhecemos. Eles mudam de cenário.
A necessidade de aprovação que antes aparecia diante dos pais pode surgir, mais tarde, na relação com um chefe. O medo de decepcionar encontra novos personagens. A insegurança muda de nome, mas continua procurando um lugar onde possa ser escutada.
Isso não significa que nada mudou. Significa apenas que amadurecer não é deixar de viver conflitos.
Contardo Calligaris, escreveu que a vida adulta carrega, o tempo todo, resquícios da infância, e é sempre menos "resolvida" do que parece. Sempre gostei dessa ideia porque ela retira do amadurecimento um peso desnecessário. Em vez de exigir uma versão perfeita de nós mesmos, ela nos convida a reconhecer que viver também implica renunciar a algumas imagens idealizadas.
Penso uma das tarefas mais difíceis da vida adulta seja justamente essa: despedir-se, pouco a pouco, da pessoa que imaginávamos ser. Não para viver resignados, mas para construir uma relação mais verdadeira com quem nos tornamos.
Na clínica, percebo que muitos sofrimentos se intensificam quando alguém acredita que já deveria estar diferente. Isso gera cobrança. A cobrança produz vergonha. A vergonha produz silêncio. E o silêncio faz parecer que todos os outros amadureceram, menos nós. Mas a vida continua nos convocando a aprender, perder, rever escolhas e reorganizar sentidos. Em alguns momentos, sentimos que avançamos. Em outros, reencontramos questões antigas sob uma nova forma. Não porque tenhamos fracassado, mas porque a própria existência nos apresenta desafios que ainda não conhecíamos.
A psicoterapia não tem como objetivo acelerar esse processo. Também não oferece uma versão definitiva de quem somos. O que ela pode oferecer é espaço onde essas repetições deixam de ser apenas motivo de culpa e passam a ser fonte de compreensão.
O amadurecer tem menos relação com eliminar conflitos e mais com ampliar a maneira como nos relacionamos com eles. Essa mudança é discreta, e aparece quando deixamos de perguntar "por que ainda sou assim?" e começamos a perguntar "o que essa experiência continua me ensinando sobre mim?".
Talvez essa seja a forma mais silenciosa de transformação, a que menos se percebe e mais permanece. Não a que nos torna pessoas prontas, mas a que nos permite continuar vivendo sem exigir de nós mesmos uma conclusão que a própria vida nunca prometeu.
Se você reconhece em si esse cansaço de "ainda não ter chegado lá", pode valer a pena conversar sobre isso.
[INFORMAÇÕES SOBRE A CONSULTA]
Sobre a autora: Fernanda Souza é psicóloga há mais de 25 anos, com mestrado em Saúde Coletiva. Sua prática é sustentada por análise pessoal, estudo contínuo e compromisso ético com o cuidado em saúde mental.