Autoconhecimento

Cansei de ser a pessoa que resolve tudo

24 de julho de 2026 · 4 min de leitura

Cansei de ser a pessoa que resolve tudo

"Cansei de ser a pessoa que resolve tudo."

Quase sempre, essa frase é recebida como um desabafo de alguém sobrecarregado. A impressão inicial é de que o problema está no excesso de tarefas: trabalho, filhos, casa, pais idosos, contas, decisões. E, de fato, muitas pessoas vivem rotinas exaustivas.

Mas, ao longo dos anos de consultório, fui percebendo que essa frase costuma esconder uma pergunta mais delicada. O que realmente acontece quando alguém deixa de resolver tudo? À primeira vista, essa parece uma pergunta prática. Pensamos nas consequências imediatas: um problema que ficará sem solução, uma tarefa que deixará de ser feita, alguém que precisará assumir uma responsabilidade. Mas, em muitos casos, existe outra preocupação, menos visível e muito mais forte. Quem eu deixo de ser quando deixo de ocupar esse lugar?

Essa é uma pergunta que raramente aparece de forma explícita. Ainda assim, ela atravessa muitas histórias.

Em quase todas as famílias existe alguém que organiza os encontros, lembra dos aniversários, marca as consultas, acompanha os pais, resolve os imprevistos e percebe quando alguma coisa não vai bem. No trabalho, costuma haver quem assuma tarefas que não lhe pertencem, quem esteja sempre disponível, quem dificilmente diga "não". Nas relações afetivas, há pessoas que se acostumaram a cuidar, antecipar necessidades e sustentar o equilíbrio da relação.

Nenhum desses gestos é, por si só, um problema. Cuidar faz parte da experiência humana. Assumir responsabilidades também. O sofrimento começa quando esse lugar deixa de ser uma escolha e passa a parecer a única forma possível de existir nas relações.

Contardo Calligaris escreveu, em diferentes momentos de sua obra, sobre o quanto nossa identidade se constrói no encontro com o olhar do outro. Penso nessas reflexões quando ouço, no consultório, pessoas que acreditam precisar ser fortes o tempo todo. Não porque desejem viver assim, mas porque, em algum momento da vida, essa pareceu ser a maneira mais segura de manter um lugar nas relações.

É comum que, quando esse papel se torna parte da identidade, descansar desperte culpa. Pedir ajuda pode parecer um incômodo. Dizer "não" pode ser vivido como egoísmo. Não porque essas pessoas desconheçam seus limites, mas porque deixar de sustentar tudo coloca em risco uma imagem de si construída ao longo de muitos anos.

A questão, então, deixa de ser apenas o excesso de responsabilidades. Passa a ser o significado que essas responsabilidades adquiriram.

Na clínica, aprendi que muitas pessoas não sofrem apenas porque fazem demais. Sofrem porque já não conseguem imaginar quem seriam se deixassem de ocupar esse lugar. Como se a possibilidade de serem amadas, reconhecidas ou importantes dependesse justamente da capacidade de cuidar, resolver e sustentar tudo à sua volta.

Essa é uma armadilha silenciosa. Aos poucos, o cuidado deixa de ser uma expressão de afeto para se transformar em uma condição de pertencimento. A pessoa já não cuida apenas porque deseja. Ela sente que precisa cuidar para continuar tendo um lugar.

A psicoterapia não convida ninguém a abandonar o cuidado ou a tornar-se indiferente às necessidades dos outros. O trabalho é mais delicado do que isso. Consiste em compreender como esse lugar foi sendo construído e em abrir espaço para outras formas de relação, nas quais seja possível cuidar sem desaparecer de si mesmo.

Talvez uma das experiências mais importantes da vida adulta seja descobrir que continuamos sendo importantes para as pessoas mesmo quando não conseguimos resolver tudo. Essa descoberta não acontece de uma vez. Ela vai sendo construída lentamente, à medida que nos permitimos experimentar relações em que o afeto não depende apenas daquilo que fazemos pelos outros, mas também da possibilidade de simplesmente estarmos presentes.

E, talvez, seja justamente aí que comece uma forma mais livre de existir.

Se você se reconheceu nesse lugar de quem resolve tudo o tempo todo, pode ser um bom momento para conversar sobre isso.

[INFORMAÇÕES SOBRE A CONSULTA]


Sobre a autora: Fernanda Souza é psicóloga há mais de 25 anos, com mestrado em Saúde Coletiva. Sua prática é sustentada por análise pessoal, estudo contínuo e compromisso ético com o cuidado em saúde mental.