Solidão

A solidão de quem dá conta de tudo sozinho

24 de julho de 2026 · 3 min de leitura

A solidão de quem dá conta de tudo sozinho

"Sou eu sozinho(a) pra tudo."

Essa frase costuma surgir no consultório de maneira quase despretensiosa. Na maioria das vezes, ela é dita enquanto a pessoa descreve situações bastante comuns da vida adulta: escolher um médico, resolver um problema em casa, trocar de carro, organizar uma viagem ou tomar uma decisão financeira. São tarefas que fazem parte da rotina e que, em princípio, não parecem justificar tanto cansaço.

O curioso é que quem pronuncia essa frase quase sempre é alguém plenamente capaz de resolver essas questões. Não é falta de autonomia, nem insegurança para decidir. O que pesa é outra coisa. É comum ouvir, de pacientes diferentes, uma variação da mesma ideia: o desejo não é que alguém resolva por elas, nem abrir mão da própria independência. É a falta de alguém para pensar junto, enquanto o caminho ainda está sendo percorrido.

Essa observação, repetida ao longo de anos de consultório, mudou a maneira como passei a ouvir essa frase. A solidão adulta nem sempre está ligada à ausência de pessoas. Muitas vezes, ela aparece quando já não encontramos alguém com quem possamos dividir a experiência de viver. Envolve ter um espaço onde as dúvidas, as preocupações e as responsabilidades possam circular, sem precisar ser sustentadas sempre pela mesma pessoa.

Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, dedicou boa parte de sua obra a entender como nos tornamos emocionalmente capazes de estar sós. À primeira vista, essa ideia parece contraditória. Winnicott propõe que a capacidade de estar só não nasce da ausência do outro, mas da experiência de ter contado, ao longo da vida, com uma presença suficientemente confiável. Aprendemos a estar sós porque, antes disso, experimentamos uma relação que nos permitiu sentir que não estávamos desamparados.

Essa formulação rompe com uma ideia muito difundida na vida adulta: a de que amadurecer significa precisar cada vez menos dos outros. Talvez seja o contrário. A autonomia não se constrói contra os vínculos, mas a partir deles. Ela não elimina a necessidade de encontro, de troca ou de amparo. Apenas permite escolher esses vínculos de outra maneira.

A partir da minha experiência clínica, compreendo que as pessoas não sofrem apenas pelo excesso de responsabilidades. O sofrimento costuma aparecer quando a vida vai sendo sustentada sem que exista um lugar onde também seja possível descansar dela. Não descansar do trabalho ou das obrigações cotidianas, mas da sensação de que tudo depende exclusivamente de si. Essa é uma forma de solidão discreta. Frequentemente se confunde com competência, responsabilidade ou força. Talvez por isso permaneça tanto tempo sem ser reconhecida.

A psicoterapia não elimina essa experiência e tampouco substitui os vínculos que fazem falta. Mas pode tornar possível uma pergunta que costuma ficar silenciosa por muitos anos: em que momento da vida comecei a acreditar que precisava carregar tudo sozinho? Nem sempre essa pergunta traz uma resposta imediata. Ainda assim, costuma abrir outra forma de olhar para a própria história. E, muitas vezes, é justamente aí que um processo de transformação começa.

Se você reconheceu algo dessa sensação de "dar conta de tudo sozinho" na sua própria rotina, marcar uma conversa pode ser um primeiro passo.

[INFORMAÇÕES SOBRE A CONSULTA]

Sobre a autora: Fernanda Souza é psicóloga há mais de 25 anos, com mestrado em Saúde Coletiva. Sua prática é sustentada por análise pessoal, estudo contínuo e compromisso ético com o cuidado em saúde mental.